Tenho roupa sobre a cama, tenho roupa
sobre a cómoda, tenho roupa na secretária, tenho roupa a cair em cascata no meu
armário. Tenho sapatos espalhados pelo chão. Tenho a cama por fazer. Tenho
livros, cadernos, folhas com os apontamentos das teóricas, dossiers, folhas em
branco, enunciados de testes, canetas, marcadores e lápis dispersos sobre a
minha secretária e tombando sobre o meu computador. Tenho pó na estante e tenho
pó no tapete. Tenho gavetas que ficaram por fechar e janelas que ficaram por
abrir. Tenho a farda do trabalho em cima da televisão. Tenho o vestido de noite
que usei há um mês num jantar pendurado na cadeira da secretária, juntamente
com cinco camisolas de verão e o meu pijama de inverno. Tenho os medicamentos
da gripe ao lado do despertador na mesinha de cabeceira. Na mesinha de
cabeceira tenho também um livro, e o candeeiro, uma chávena de chá e as
migalhas das bolachas que comi ontem.
«Como ainda não enlouqueci?» pergunto-me
todas as vezes que acordo pela manhã. A correria casa-escola-escola-trabalho-trabalho-casa
têm-me sugado o tempo todo e o resultado é que não tenho espaço para caminhar
no meu próprio quarto. Hoje antes de sair de casa tropecei num amontoado de
folhas que não reconheci de imediato. Ao fim da tarde, interrompi a arrumação
do quarto para ler e tentar organizar aquelas folhas, algumas delas rasgadas.
Eram páginas do meu antigo diário. Afastei as almofadas, o urso de pelúcia, as
roupas e endireitei o cobertor para ficar com uma superfície lisa sobre a cama
onde me pudesse sentar.
Onze de Novembro de dois mil e dez
Quinta-feira.
Depois de alguma resistência, ganhei coragem e fui vê-lo ao hospital. Já tinha
ouvido falar mas não sabia ao certo onde ficava o Curry Cabral. Na entrada
perguntei ao porteiro onde era a unidade de ortopedia. Indicou-me que bastava
seguir em frente e na porta havia uma placa com a inscrição “ortopedia”.
Receosa, entrei. Encontrei logo um balcão de informações no centro de uma sala
espaçosa. As pessoas atropelavam-se para ser atendidas. Aguardei a minha vez.
Alguns seguravam buquês de flores. Outros lamentavam a demora no atendimento.
Uns choravam, enquanto outros sorriam.
Chegada
então a minha vez, aproximei-me do balcão e disse: «Boa tarde, eu gostava de
saber em que quarto está o Helder Ferreira». O técnico do atendimento pegou numa
lista com talvez umas cinco páginas, presas simplesmente por um agrafo, que
continha certamente o nome dos pacientes internados naquela unidade. Encostou
os óculos à face, que antes pendiam sobre o peito presos por um cordel, e quase
consegui ler a sua mente percorrendo a extensa lista de nomes ordenados
alfabeticamente «Ora A, B, C, D, E…». Com um ar decepcionado informou-me «Esse
nome não consta na lista.» Eu, adivinhando o lapso, respondi «Helder escreve-se
com H.» Consultou novamente a lista e retorquiu: está no segundo piso, segunda
porta à direita, cama setenta e seis.
Subi
no elevador ansiosa e ao mesmo tempo cheia de medo. Perguntava-me como eu
própria reagiria se no quarto estivesse toda a família dele. Com que cara iria
eu olhar para os pais do rapaz que eu gostava? Como é que me vou apresentar?
«Olá sou a Lara e espero estar a jantar em vossa casa um dia destes!»
Para
minha surpresa, o quarto estava às escuras. Na densidade da escuridão consegui
distinguir um idoso descansando tranquilamente numa das seis camas que havia no
quarto. Na cama em frente, outro corpo cuja silhueta fazia crer que seria uma mulher
também jazia com mansidão. Havia duas pessoas do meu lado esquerdo
completamente tapadas pelos cobertores e as restantes camas estavam vazias. Por
momentos duvidei de mim própria, sai do quarto e confirmei se tinha entrado no
quarto certo. Tornei a entrar. Com a voz trémula ciciei baixinho «Helder…?». Eis
que uma lâmpada se iluminou no meu lado esquerdo e ele sentou-se sobre a cama
sorrindo para mim, ainda sonolento. No fundo acho que ele não acreditou que eu
iria mesmo visitá-lo. Cumprimentei-o com dois beijos lentos na face.
-
Então estás bem? Como correu a operação?
-
Estou bem, apenas cansado. Meteram-me uns parafusos no joelho, ainda me dói um
pouco. Vou ter de fazer alguns meses de fisioterapia.
-
Não me chegaste a explicar por que foste operado…
-
Lesionei-me a jogar basquete no sétimo ano. Um colega passou-me a bola e eu
agarrei, mas estava de costas para o cesto. Ao girar o corpo, não rodei
totalmente a perna e enfim… Deixei o tempo andar, mas ultimamente tornei a
sentir dores, fiz exames e o médico determinou que seria necessário fazer uma
cirurgia.
-
Tonto! Pelo menos encestaste?
-Não…-
disse com um sorriso trocista de si mesmo. Tenho um tubo a atravessar-me o
joelho. Queres ver?
Sem
esperar pela resposta, destapou o corpo que estava praticamente nu! Tinha
apenas uma bata verde que por estar sentado ficava-lhe ao nível da cintura. De
facto o tubo estava lá, repleto de sangue e penetrando a sua pele.
Impressionante! Mas mais impressionante ainda foi perceber que ele tinha apenas
uma espécie de fralda a cobrir-lhe o sexo. Quando me mostrou o joelho tenho
certeza que também tinha em mente saber qual a minha reacção ao vê-lo pela
primeira vez assim tão… despido!
-
Como não convém mexer-me muito para ir à casa de banho tenho que chamar a
enfermeira e fazer xixi para um penico.
-
Ai sim?! – Soltei uma leve gargalhada.
-
Olá filho! – Entrou a mãe dele no quarto. Olá – falou dirigindo-se a mim e
cumprimentou-me. O senhor na entrada tinha dito que estava aqui uma senhora… Eu
achei estranho. É tua colega da escola?
Não
era assim que eu estava a pensar conhecer a mãe do meu futuro namorado. Não era
assim que eu a imaginava. Fiquei muda, hirta, gelada, petrificada. A partir
daquele momento nem piei. Não sabia se havia de olhar para ele, se havia de
olhar para ela, se havia de ajudá-la na sua preocupação de mãe a ajeitar os
cobertores, a ajeitar os lençóis, a ajeitar o soro, a endireitar a tubagem
toda. Não sabia o que fazer às mãos. Não sabia que expressão facial esboçar
para disfarçar o meu embaraço! Fiquei apenas em pé, fitando-a. Ele foi respondendo
às perguntas dela.
-
Sim, ela também é do teatro da escola.
-
Não tens frio só com estes dois cobertores? Tens-te alimentado bem? Trouxe
comida.
Foram
talvez dois ou três minutos que eu permaneci ali depois de ela ter entrado mas
parecia que o tempo tinha congelado. Apressei-me a ir embora «Bom Helder, eu vou
andando. Deves ter imensa família lá fora à espera para te ver…». Ele olhou
para mim sem saber bem o que dizer, cumprimentei-o, cumprimentei-a e sai dali o
mais rápido que pude.
Já
perto do elevador vi ainda o pai dele.
Mas
outra missão fez-me apressar o passo: chegar a casa antes que a minha mãe
regressasse do trabalho e desse pela minha falta.
Doze de Novembro de dois mil e dez
Sexta-feira.
Desde que sai do hospital não paro de rever mentalmente todos aqueles
segundinhos. Ficamos a falar por mensagens durante a noite, mas ele acabou por
adormecer. Durante toda esta manhã ele não parava de me enviar mensagens
insistindo para que eu o fosse visitar novamente e lamentava que eu tivesse ficado
tão pouco tempo. Senti-me tentada a ir visitá-lo novamente, mas o bom senso
dizia-me que a família dele desconfiaria que seria preocupação excessiva para
uma simples amiga e para uma simples cirurgia ao joelho. Não quero criar falsas
expectativas. Nós próprios não sabemos ao certo o que isto será. Nem sequer
sabemos se existe um «nós».
Entretanto
ele teve alta. Depois de tanta insistência acabei por ir visitá-lo esta tarde,
em casa. A mãe dele abriu-me a porta surpreendida «Olá Lara, tudo bem?». Sei que
no seu íntimo desconfiava daquela preocupação repentina e dos verdadeiros
motivos que me faziam visitá-lo pela segunda vez em menos de vinte e quatro
horas. Talvez a pergunta que realmente ela tencionava fazer era «como estás
desde ontem?» ou pior «o que é que estás a fazer aqui outra vez?». No entanto,
com a sua simpatia mostrou-me educadamente onde ficava o quarto dele.
Bati
à porta e entrei. Ele estava sobre a cama a cantar e a tocar guitarra com um
amigo, o Ricardo. Tinha a perna engessada e o gesso já tinha as marcas deixadas
pelos amigos. Sentei-me no chão com as pernas dobradas em “V” invertido e fiquei
a assisti-los a tocar enquanto brincava com o cão dele. O cão pulava sobre mim,
passava por baixo das minhas pernas, pendurava-se nos meus ombros. Parecia
realmente ter gostado de mim. Isso geralmente nos filmes é bom sinal, espero
que também seja um indício de um final feliz ou pelo menos de um início feliz.
Meia
hora depois o Ricardo teve que se ir embora. No momento em que ele se levantou
para se despedir, mil e um pensamentos debateram-se em conflito na minha mente
«E agora: parto ou fico? Vou ou permaneço? A minha vontade é ficar, mas sei que
a minha mãe não ia adorar a ideia de eu ficar sozinha com um rapaz num quarto.
E o que é que os pais deles vão achar de mim - uma rapariga num quarto com um
rapaz?! Vão achar que eu não tenho educação nenhuma! E se eu fico e a mãe ou
pai rompem pelo quarto e nos surpreendem a meio de um beijo – o nosso primeiro
beijo? Ai não sei! Não sei! Mas também não estamos a fazer nada de mal. Vim
apenas visitá-lo. Além disso, não estamos sozinhos… está aqui o spike, o cão.
Eu Fico.»
Ele
pediu que me sentasse ao pé dele, na cama. Acedi ao seu pedido, receosa das
suas intensões, e com cuidado para não o magoar, sentei-me na outra ponta da
cama…
Cantámos
mais uma hora, foi divertido. Fui-me embora, mas dentro de mim havia a certeza
que aquela não a seria a última vez que eu estaria naquela casa e naquele
quarto.