segunda-feira, 25 de março de 2013
"com a nossa separação ambos perdemos. eu perdi porque tu foste a pessoa que mais amei. tu perdeste porque eu fui a pessoa que mais te amou. mas de nós dois, tu foste a pessoa que mais perdeu. porque eu posso vir a amar outra pessoa como amei a ti e tu jamais encontrarás alguém que te ame tanto quanto eu te amei."
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Páginas do meu diário
Tenho roupa sobre a cama, tenho roupa
sobre a cómoda, tenho roupa na secretária, tenho roupa a cair em cascata no meu
armário. Tenho sapatos espalhados pelo chão. Tenho a cama por fazer. Tenho
livros, cadernos, folhas com os apontamentos das teóricas, dossiers, folhas em
branco, enunciados de testes, canetas, marcadores e lápis dispersos sobre a
minha secretária e tombando sobre o meu computador. Tenho pó na estante e tenho
pó no tapete. Tenho gavetas que ficaram por fechar e janelas que ficaram por
abrir. Tenho a farda do trabalho em cima da televisão. Tenho o vestido de noite
que usei há um mês num jantar pendurado na cadeira da secretária, juntamente
com cinco camisolas de verão e o meu pijama de inverno. Tenho os medicamentos
da gripe ao lado do despertador na mesinha de cabeceira. Na mesinha de
cabeceira tenho também um livro, e o candeeiro, uma chávena de chá e as
migalhas das bolachas que comi ontem.
«Como ainda não enlouqueci?» pergunto-me
todas as vezes que acordo pela manhã. A correria casa-escola-escola-trabalho-trabalho-casa
têm-me sugado o tempo todo e o resultado é que não tenho espaço para caminhar
no meu próprio quarto. Hoje antes de sair de casa tropecei num amontoado de
folhas que não reconheci de imediato. Ao fim da tarde, interrompi a arrumação
do quarto para ler e tentar organizar aquelas folhas, algumas delas rasgadas.
Eram páginas do meu antigo diário. Afastei as almofadas, o urso de pelúcia, as
roupas e endireitei o cobertor para ficar com uma superfície lisa sobre a cama
onde me pudesse sentar.
Onze de Novembro de dois mil e dez
Quinta-feira.
Depois de alguma resistência, ganhei coragem e fui vê-lo ao hospital. Já tinha
ouvido falar mas não sabia ao certo onde ficava o Curry Cabral. Na entrada
perguntei ao porteiro onde era a unidade de ortopedia. Indicou-me que bastava
seguir em frente e na porta havia uma placa com a inscrição “ortopedia”.
Receosa, entrei. Encontrei logo um balcão de informações no centro de uma sala
espaçosa. As pessoas atropelavam-se para ser atendidas. Aguardei a minha vez.
Alguns seguravam buquês de flores. Outros lamentavam a demora no atendimento.
Uns choravam, enquanto outros sorriam.
Chegada
então a minha vez, aproximei-me do balcão e disse: «Boa tarde, eu gostava de
saber em que quarto está o Helder Ferreira». O técnico do atendimento pegou numa
lista com talvez umas cinco páginas, presas simplesmente por um agrafo, que
continha certamente o nome dos pacientes internados naquela unidade. Encostou
os óculos à face, que antes pendiam sobre o peito presos por um cordel, e quase
consegui ler a sua mente percorrendo a extensa lista de nomes ordenados
alfabeticamente «Ora A, B, C, D, E…». Com um ar decepcionado informou-me «Esse
nome não consta na lista.» Eu, adivinhando o lapso, respondi «Helder escreve-se
com H.» Consultou novamente a lista e retorquiu: está no segundo piso, segunda
porta à direita, cama setenta e seis.
Subi
no elevador ansiosa e ao mesmo tempo cheia de medo. Perguntava-me como eu
própria reagiria se no quarto estivesse toda a família dele. Com que cara iria
eu olhar para os pais do rapaz que eu gostava? Como é que me vou apresentar?
«Olá sou a Lara e espero estar a jantar em vossa casa um dia destes!»
Para
minha surpresa, o quarto estava às escuras. Na densidade da escuridão consegui
distinguir um idoso descansando tranquilamente numa das seis camas que havia no
quarto. Na cama em frente, outro corpo cuja silhueta fazia crer que seria uma mulher
também jazia com mansidão. Havia duas pessoas do meu lado esquerdo
completamente tapadas pelos cobertores e as restantes camas estavam vazias. Por
momentos duvidei de mim própria, sai do quarto e confirmei se tinha entrado no
quarto certo. Tornei a entrar. Com a voz trémula ciciei baixinho «Helder…?». Eis
que uma lâmpada se iluminou no meu lado esquerdo e ele sentou-se sobre a cama
sorrindo para mim, ainda sonolento. No fundo acho que ele não acreditou que eu
iria mesmo visitá-lo. Cumprimentei-o com dois beijos lentos na face.
-
Então estás bem? Como correu a operação?
-
Estou bem, apenas cansado. Meteram-me uns parafusos no joelho, ainda me dói um
pouco. Vou ter de fazer alguns meses de fisioterapia.
-
Não me chegaste a explicar por que foste operado…
-
Lesionei-me a jogar basquete no sétimo ano. Um colega passou-me a bola e eu
agarrei, mas estava de costas para o cesto. Ao girar o corpo, não rodei
totalmente a perna e enfim… Deixei o tempo andar, mas ultimamente tornei a
sentir dores, fiz exames e o médico determinou que seria necessário fazer uma
cirurgia.
-
Tonto! Pelo menos encestaste?
-Não…-
disse com um sorriso trocista de si mesmo. Tenho um tubo a atravessar-me o
joelho. Queres ver?
Sem
esperar pela resposta, destapou o corpo que estava praticamente nu! Tinha
apenas uma bata verde que por estar sentado ficava-lhe ao nível da cintura. De
facto o tubo estava lá, repleto de sangue e penetrando a sua pele.
Impressionante! Mas mais impressionante ainda foi perceber que ele tinha apenas
uma espécie de fralda a cobrir-lhe o sexo. Quando me mostrou o joelho tenho
certeza que também tinha em mente saber qual a minha reacção ao vê-lo pela
primeira vez assim tão… despido!
-
Como não convém mexer-me muito para ir à casa de banho tenho que chamar a
enfermeira e fazer xixi para um penico.
-
Ai sim?! – Soltei uma leve gargalhada.
-
Olá filho! – Entrou a mãe dele no quarto. Olá – falou dirigindo-se a mim e
cumprimentou-me. O senhor na entrada tinha dito que estava aqui uma senhora… Eu
achei estranho. É tua colega da escola?
Não
era assim que eu estava a pensar conhecer a mãe do meu futuro namorado. Não era
assim que eu a imaginava. Fiquei muda, hirta, gelada, petrificada. A partir
daquele momento nem piei. Não sabia se havia de olhar para ele, se havia de
olhar para ela, se havia de ajudá-la na sua preocupação de mãe a ajeitar os
cobertores, a ajeitar os lençóis, a ajeitar o soro, a endireitar a tubagem
toda. Não sabia o que fazer às mãos. Não sabia que expressão facial esboçar
para disfarçar o meu embaraço! Fiquei apenas em pé, fitando-a. Ele foi respondendo
às perguntas dela.
-
Sim, ela também é do teatro da escola.
-
Não tens frio só com estes dois cobertores? Tens-te alimentado bem? Trouxe
comida.
Foram
talvez dois ou três minutos que eu permaneci ali depois de ela ter entrado mas
parecia que o tempo tinha congelado. Apressei-me a ir embora «Bom Helder, eu vou
andando. Deves ter imensa família lá fora à espera para te ver…». Ele olhou
para mim sem saber bem o que dizer, cumprimentei-o, cumprimentei-a e sai dali o
mais rápido que pude.
Já
perto do elevador vi ainda o pai dele.
Mas
outra missão fez-me apressar o passo: chegar a casa antes que a minha mãe
regressasse do trabalho e desse pela minha falta.
Doze de Novembro de dois mil e dez
Sexta-feira.
Desde que sai do hospital não paro de rever mentalmente todos aqueles
segundinhos. Ficamos a falar por mensagens durante a noite, mas ele acabou por
adormecer. Durante toda esta manhã ele não parava de me enviar mensagens
insistindo para que eu o fosse visitar novamente e lamentava que eu tivesse ficado
tão pouco tempo. Senti-me tentada a ir visitá-lo novamente, mas o bom senso
dizia-me que a família dele desconfiaria que seria preocupação excessiva para
uma simples amiga e para uma simples cirurgia ao joelho. Não quero criar falsas
expectativas. Nós próprios não sabemos ao certo o que isto será. Nem sequer
sabemos se existe um «nós».
Entretanto
ele teve alta. Depois de tanta insistência acabei por ir visitá-lo esta tarde,
em casa. A mãe dele abriu-me a porta surpreendida «Olá Lara, tudo bem?». Sei que
no seu íntimo desconfiava daquela preocupação repentina e dos verdadeiros
motivos que me faziam visitá-lo pela segunda vez em menos de vinte e quatro
horas. Talvez a pergunta que realmente ela tencionava fazer era «como estás
desde ontem?» ou pior «o que é que estás a fazer aqui outra vez?». No entanto,
com a sua simpatia mostrou-me educadamente onde ficava o quarto dele.
Bati
à porta e entrei. Ele estava sobre a cama a cantar e a tocar guitarra com um
amigo, o Ricardo. Tinha a perna engessada e o gesso já tinha as marcas deixadas
pelos amigos. Sentei-me no chão com as pernas dobradas em “V” invertido e fiquei
a assisti-los a tocar enquanto brincava com o cão dele. O cão pulava sobre mim,
passava por baixo das minhas pernas, pendurava-se nos meus ombros. Parecia
realmente ter gostado de mim. Isso geralmente nos filmes é bom sinal, espero
que também seja um indício de um final feliz ou pelo menos de um início feliz.
Meia
hora depois o Ricardo teve que se ir embora. No momento em que ele se levantou
para se despedir, mil e um pensamentos debateram-se em conflito na minha mente
«E agora: parto ou fico? Vou ou permaneço? A minha vontade é ficar, mas sei que
a minha mãe não ia adorar a ideia de eu ficar sozinha com um rapaz num quarto.
E o que é que os pais deles vão achar de mim - uma rapariga num quarto com um
rapaz?! Vão achar que eu não tenho educação nenhuma! E se eu fico e a mãe ou
pai rompem pelo quarto e nos surpreendem a meio de um beijo – o nosso primeiro
beijo? Ai não sei! Não sei! Mas também não estamos a fazer nada de mal. Vim
apenas visitá-lo. Além disso, não estamos sozinhos… está aqui o spike, o cão.
Eu Fico.»
Ele
pediu que me sentasse ao pé dele, na cama. Acedi ao seu pedido, receosa das
suas intensões, e com cuidado para não o magoar, sentei-me na outra ponta da
cama…
Cantámos
mais uma hora, foi divertido. Fui-me embora, mas dentro de mim havia a certeza
que aquela não a seria a última vez que eu estaria naquela casa e naquele
quarto.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Uma das coisas que descobri quando era professor é que ninguém escolhe a última fila em vão. Nem sempre um rapaz a escolhe por ser o malandro, a última fila é aquela de onde se vê todos os outros sem se ser visto - é a fila do escritor, do artista.
Juan Mayorga
Este era o mote de uma peça de teatro que fui ver o ano passado. Uma peça um tanto complexa é facto.
Esta introdução dá-nos tanto que pensar... Não é verdade que costumamos associar sempre os da última fila do autocarro, os da última fila na sala de aula, os da última fila no cinema aos "malandros"? Os da última fila do autocarro porque geralmente são os mitras que ocupam esses lugares e escutam música em alto e bom som. Os da última fila na sala de aula porque geralmente são os mais rebeldes que se um dia não levarem falta disciplinar é porque estavam doentes e faltaram às aulas. E os da última fila do cinema... por razões óbvias!
Mas também é verdade que nem sempre isto é tão linear. Da última fila a visão é mais ampla. Distraímo-nos com maior facilidade porque sob esta perspectiva estamos mais sensíveis a outras coisas que não unicamente o nosso foco. Como dizia, a visão é mais ampla. É fundamental por vezes ausentarmo-nos dos nossos costumes, sentar noutra cadeira e tentar ver mais alto. Nem tudo aquilo que parece é e isso é uma das coisas que tenho estado a aprender diariamente.
Juan Mayorga
Este era o mote de uma peça de teatro que fui ver o ano passado. Uma peça um tanto complexa é facto.
Esta introdução dá-nos tanto que pensar... Não é verdade que costumamos associar sempre os da última fila do autocarro, os da última fila na sala de aula, os da última fila no cinema aos "malandros"? Os da última fila do autocarro porque geralmente são os mitras que ocupam esses lugares e escutam música em alto e bom som. Os da última fila na sala de aula porque geralmente são os mais rebeldes que se um dia não levarem falta disciplinar é porque estavam doentes e faltaram às aulas. E os da última fila do cinema... por razões óbvias!
Mas também é verdade que nem sempre isto é tão linear. Da última fila a visão é mais ampla. Distraímo-nos com maior facilidade porque sob esta perspectiva estamos mais sensíveis a outras coisas que não unicamente o nosso foco. Como dizia, a visão é mais ampla. É fundamental por vezes ausentarmo-nos dos nossos costumes, sentar noutra cadeira e tentar ver mais alto. Nem tudo aquilo que parece é e isso é uma das coisas que tenho estado a aprender diariamente.
sábado, 12 de janeiro de 2013
vem comigo
Leila (Lauren Lee Smith) é uma mulher sexualmente insaciável que estabelece relações com homens através de breves encontros sexuais. Uma noite, numa festa, Leila conhece David (Eric Balfour) e imediatamente existe uma enorme tensão sexual entre os dois. Mutuamente atraídos, iniciam uma relação em que a sedução e o prazer não têm limites e onde o sexo é uma forma de comunicação. Mas Leila e David começam a aperceber-se que o seu relacionamento é diferente de tudo aquilo que já sentiram. Pela primeira vez, os dois sentem necessidades e desejos que vão para lá do físico. Baseado na obra homónima aclamada pela crítica de Tamara Faith Berger, uma história onde a sedução e o sexo dão lugar a um sentimento de amor profundo entre um homem e uma mulher.
Quando me perguntarem qual o filme da minha vida aqui está a resposta. Mudando o nome das personagens a essência deste filme resume os meus últimos dois anos e além disso foi precisamente por causa deste filme que essa etapa da minha vida teve inicio... Memórias que ficarão para sempre.
Quando me perguntarem qual o filme da minha vida aqui está a resposta. Mudando o nome das personagens a essência deste filme resume os meus últimos dois anos e além disso foi precisamente por causa deste filme que essa etapa da minha vida teve inicio... Memórias que ficarão para sempre.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
« Sei que um dia te vais lembrar de mim, e os números da tua agenda passarão claramente à tua frente e não terás nenhum para marcar, talvez até tentes o meu, mas até lá posso não te atender ou talvez aquele já nem seja o meu número. Vais tentar chamar alguém, mas não vai haver ninguém que largue tudo para te ir dar um abraço. (...) »
Teresa.
Teresa.
sábado, 5 de janeiro de 2013
13 desejos para 2013
1. Socializar mais.
2. Festejar mais.
3. Relativizar mais.
4. Ler mais
5. Trabalhar mais.
6. Saúde: mais
7. Descontrair mais.
8. Exercitar mais
9. Conduzir mais.
10. Engordar mais.
11. Estimar-me mais.
12. Gastar mais.
13. Amar-me mais.
2. Festejar mais.
3. Relativizar mais.
4. Ler mais
5. Trabalhar mais.
6. Saúde: mais
7. Descontrair mais.
8. Exercitar mais
9. Conduzir mais.
10. Engordar mais.
11. Estimar-me mais.
12. Gastar mais.
13. Amar-me mais.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Lembras-te quando fomos ao castelo? Nessa altura ainda era tua princesa. Nesse dia pisaste aquela estrangeira por duas vezes. O teu embaraço já era tanto que já nem sabias como pedir desculpa. Não te lembras?
Mas lembras-te com certeza daquelas férias magníficas em que logo cedo pela manhã estavas em minha casa. Oito, oito e meia, mais tardar. E tantos filmes que vimos! Sou incapaz de listá-los. Lembras-te quando comemos as maçãs e as pêras, desfeitas em pedaços, em cima dos nossos corpos nus? E quando comi mel? Ás tantas já era enjoativo! E daquela vez em que te preparei uma surpresa: comprei roupa nova, preparei um prato com aperitivos, as velas e o vinho e tu - tão desastrado que tu eras - com um simples expirar apagaste as velas! Lembras-te dos desenhos que fizemos? Tenho-os guardados num dossier. Ambos estamos um pouco deformados! E daquela vez que desarrumamos a minha sala para montar os colchões, levaste-me para a cozinha e mesmo em cima da mesa fizemos amor. Também não te lembras?! E daquele dia em que decidimos estudar... Ah sim! como me pude esquecer? - foste meu aprendiz a princípio.
Não te esqueceste pois das sextas-feiras em que fui assistir às tuas aulas. A professora parecia repetir exactamente as mesmas piadas, ano após ano.
Mas hás-de te lembrar dos nossos banhos. Ainda me vejo a espremer a esponja contra o teu corpo e a espuma a escorrer... Recordas-te certamente dos dias em que íamos nadar com o teu amigo. Oh que recordações! E quando iamos treinar no parque...? Ou quando iamos brincar no parque com o teu cão ao som do saxofone? Surpreende-me que não te lembres...
E o palco? O palco onde nos conhecemos e contracenámos. Não te recordas? Nem dos nossos passeios junto ao rio? Ou quando fomos aos jardins da Gulbenkian? Ou dos nossos inúmeros cafés no shopping? Nunca percebi a tua mania por coleccionar chávenas de café. Ahahaha e quando fomos à biblioteca angariar supostamente cultura e acabamos por aprender que as posições do amor dependem muito da criatividade. Também não te lembras? Como pode?
Tens a carta que de dei quando regressei daquela viagem? Os chocolates eram bons? A camisola que te dei ainda usas ou já está gasta pelo tempo? Já gastaste o perfume que te ofereci? E o livro ainda está na mesma prateleira?
Bom, talvez te lembres da noite do teu aniversário. Comprei aquele vestido especialmente para aquela data. A tua família é muito carinhosa. E lembras-te do meu primeiro almoço em tua casa? Recordo-me tão bem: febras com arroz e salada. E as massagens?! Nem sequer disso te lembras? Espanta-me! As pedras quentes sobre o meu corpo.... (Apagaste essa foto?). Nem do dia em que tinhas consulta no oculista e chegaste atrasado por minha causa...? Ou daquela noite debaixo das estrelas e debaixo da chuva... Ou do marco geodésico... Ou daquela tarde em frente ao campo de futebol... Ou da primeira noite em que comemorámos num jantar o dia de São Valentim... Ou dos intervalos na escola em que namorávamos nas escadas temendo que algum professor aparecesse... Ou daquela vez em que lambeste as minhas lágrimas porque eu chorei de tanto prazer...
Nada?!
Vá... Mas de algo tens de te lembrar! Não posso acreditar que não te lembres das nossas lindas mensagens que trocávamos por telefone. E daquelas manhãs em que eu acordava inspirada e mandava-te quase um testamento para te desejar um bom dia. Fui tão feliz nessas manhãs. E das nossas chamadas telefónicas que duravam horas e horas e horas. Tu cantavas para mim...
E quando jogávamos as cartas? Eu sou bem melhor que tu, sabes bem! E lembras-te daquela madrugada em que caminhei meia hora, temendo um assalto ou um estupro, só para estar deitada ao teu lado? Por pouco acordávamos os vizinhos! Ou quando deitados na tua cama imaginávamos uma câmara fotográfica no tecto e esboçávamos as posições mais rídiculas! Somos tão parvos.
Até mesmo quando escrevias cartas para os teus dois amores. Até disso me lembro bem.
Mas de nada disto te lembras? Como é possível? Qual o motivo dessa amnésia? Que droga é essa tão rápida e tão eficaz? Que fármaco é esse capaz de apagar em segundos o que demorou anos a construir? Mostra-me. Quero prová-lo porque também eu quero ter amnésia.
Mas lembras-te com certeza daquelas férias magníficas em que logo cedo pela manhã estavas em minha casa. Oito, oito e meia, mais tardar. E tantos filmes que vimos! Sou incapaz de listá-los. Lembras-te quando comemos as maçãs e as pêras, desfeitas em pedaços, em cima dos nossos corpos nus? E quando comi mel? Ás tantas já era enjoativo! E daquela vez em que te preparei uma surpresa: comprei roupa nova, preparei um prato com aperitivos, as velas e o vinho e tu - tão desastrado que tu eras - com um simples expirar apagaste as velas! Lembras-te dos desenhos que fizemos? Tenho-os guardados num dossier. Ambos estamos um pouco deformados! E daquela vez que desarrumamos a minha sala para montar os colchões, levaste-me para a cozinha e mesmo em cima da mesa fizemos amor. Também não te lembras?! E daquele dia em que decidimos estudar... Ah sim! como me pude esquecer? - foste meu aprendiz a princípio.
Não te esqueceste pois das sextas-feiras em que fui assistir às tuas aulas. A professora parecia repetir exactamente as mesmas piadas, ano após ano.
Mas hás-de te lembrar dos nossos banhos. Ainda me vejo a espremer a esponja contra o teu corpo e a espuma a escorrer... Recordas-te certamente dos dias em que íamos nadar com o teu amigo. Oh que recordações! E quando iamos treinar no parque...? Ou quando iamos brincar no parque com o teu cão ao som do saxofone? Surpreende-me que não te lembres...
E o palco? O palco onde nos conhecemos e contracenámos. Não te recordas? Nem dos nossos passeios junto ao rio? Ou quando fomos aos jardins da Gulbenkian? Ou dos nossos inúmeros cafés no shopping? Nunca percebi a tua mania por coleccionar chávenas de café. Ahahaha e quando fomos à biblioteca angariar supostamente cultura e acabamos por aprender que as posições do amor dependem muito da criatividade. Também não te lembras? Como pode?
Tens a carta que de dei quando regressei daquela viagem? Os chocolates eram bons? A camisola que te dei ainda usas ou já está gasta pelo tempo? Já gastaste o perfume que te ofereci? E o livro ainda está na mesma prateleira?
Bom, talvez te lembres da noite do teu aniversário. Comprei aquele vestido especialmente para aquela data. A tua família é muito carinhosa. E lembras-te do meu primeiro almoço em tua casa? Recordo-me tão bem: febras com arroz e salada. E as massagens?! Nem sequer disso te lembras? Espanta-me! As pedras quentes sobre o meu corpo.... (Apagaste essa foto?). Nem do dia em que tinhas consulta no oculista e chegaste atrasado por minha causa...? Ou daquela noite debaixo das estrelas e debaixo da chuva... Ou do marco geodésico... Ou daquela tarde em frente ao campo de futebol... Ou da primeira noite em que comemorámos num jantar o dia de São Valentim... Ou dos intervalos na escola em que namorávamos nas escadas temendo que algum professor aparecesse... Ou daquela vez em que lambeste as minhas lágrimas porque eu chorei de tanto prazer...
Nada?!
Vá... Mas de algo tens de te lembrar! Não posso acreditar que não te lembres das nossas lindas mensagens que trocávamos por telefone. E daquelas manhãs em que eu acordava inspirada e mandava-te quase um testamento para te desejar um bom dia. Fui tão feliz nessas manhãs. E das nossas chamadas telefónicas que duravam horas e horas e horas. Tu cantavas para mim...
E quando jogávamos as cartas? Eu sou bem melhor que tu, sabes bem! E lembras-te daquela madrugada em que caminhei meia hora, temendo um assalto ou um estupro, só para estar deitada ao teu lado? Por pouco acordávamos os vizinhos! Ou quando deitados na tua cama imaginávamos uma câmara fotográfica no tecto e esboçávamos as posições mais rídiculas! Somos tão parvos.
Até mesmo quando escrevias cartas para os teus dois amores. Até disso me lembro bem.
Mas de nada disto te lembras? Como é possível? Qual o motivo dessa amnésia? Que droga é essa tão rápida e tão eficaz? Que fármaco é esse capaz de apagar em segundos o que demorou anos a construir? Mostra-me. Quero prová-lo porque também eu quero ter amnésia.
A dor de uma traição é muito grande. Lembro-me que durante toda aquela noite tentei abafar o meu choro contra a almofada.
A dor que sinto neste momento já não é uma dor expressável com lágrimas. É uma dor imensurável que se expressa com palpitações no coração.
É a dor de perceber que o teu presente é consequência dos grandes erros que cometeste no passado.
É perceber que hoje poderias estar a estudar para os exames do curso que sempre sonhaste seguir e estás a estudar para os exames da faculdade ao lado.
É perceber que poderias estar a dedicar-te inteiramente ao teu estudo mas em vez disso tiveste que ir trabalhar para os pagar.
É perceber que podias ter agora pais prontos a ajudar-te e tens pais muito desiludidos contigo.
Tudo isto porque amaste alguém. Alguém que nem sequer conheceu o significado da palavra amor ao teu lado. Alguém que se calhar nem sabe nem valoriza isto.
É perceber que podias não ter engravidado. É perceber que podias não ter abortado.
A dor que sinto neste momento já não é uma dor expressável com lágrimas. É uma dor imensurável que se expressa com palpitações no coração.
É a dor de perceber que o teu presente é consequência dos grandes erros que cometeste no passado.
É perceber que hoje poderias estar a estudar para os exames do curso que sempre sonhaste seguir e estás a estudar para os exames da faculdade ao lado.
É perceber que poderias estar a dedicar-te inteiramente ao teu estudo mas em vez disso tiveste que ir trabalhar para os pagar.
É perceber que podias ter agora pais prontos a ajudar-te e tens pais muito desiludidos contigo.
Tudo isto porque amaste alguém. Alguém que nem sequer conheceu o significado da palavra amor ao teu lado. Alguém que se calhar nem sabe nem valoriza isto.
É perceber que podias não ter engravidado. É perceber que podias não ter abortado.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Na noite de passagem de ano tive um sonho macabro.
Ele não tinha braços nem pernas. Pernas só até ao joelho, braços não existiam de todo.
Ainda assim O amava.
Não dou importância às possíveis interpretações que os sonhos possam ter, mas se este sonho tivesse uma interpretação certamente seria: eu amo-O incondicionalmente.
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