sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Lembras-te quando fomos ao castelo? Nessa altura ainda era tua princesa. Nesse dia pisaste aquela estrangeira por duas vezes. O teu embaraço já era tanto que já nem sabias como pedir desculpa. Não te lembras?

Mas lembras-te com certeza daquelas férias magníficas em que logo cedo pela manhã estavas em minha casa. Oito, oito e meia, mais tardar. E tantos filmes que vimos! Sou incapaz de listá-los. Lembras-te quando comemos as maçãs e as pêras, desfeitas em pedaços, em cima dos nossos corpos nus? E quando comi mel? Ás tantas já era enjoativo! E daquela vez em que te preparei uma surpresa: comprei roupa nova, preparei um prato com aperitivos, as velas e o vinho e tu - tão desastrado que tu eras - com um simples expirar apagaste as velas! Lembras-te dos desenhos que fizemos? Tenho-os guardados num dossier. Ambos estamos um pouco deformados! E daquela vez que desarrumamos a minha sala para montar os colchões, levaste-me para a cozinha e mesmo em cima da mesa fizemos amor. Também não te lembras?! E daquele dia em que decidimos estudar... Ah sim! como me pude esquecer? - foste meu aprendiz a princípio.
Não te esqueceste pois das sextas-feiras em que fui assistir às tuas aulas. A professora parecia repetir exactamente as mesmas piadas, ano após ano.

Mas hás-de te lembrar dos nossos banhos. Ainda me vejo a espremer a esponja contra o teu corpo e a espuma a escorrer... Recordas-te certamente dos dias em que íamos nadar com o teu amigo. Oh que recordações! E quando iamos treinar no parque...? Ou quando iamos brincar no parque com o teu cão ao som do saxofone? Surpreende-me que não te lembres...

E o palco? O palco onde nos conhecemos e contracenámos. Não te recordas? Nem dos nossos passeios junto ao rio? Ou quando fomos aos jardins da Gulbenkian? Ou dos nossos inúmeros cafés no shopping? Nunca percebi a tua mania por coleccionar chávenas de café. Ahahaha e quando fomos à biblioteca angariar supostamente cultura e acabamos por aprender que as posições do amor dependem muito da criatividade. Também não te lembras? Como pode?

Tens a carta que de dei quando regressei daquela viagem? Os chocolates eram bons? A camisola que te dei ainda usas ou já está gasta pelo tempo? Já gastaste o perfume que te ofereci? E o livro ainda está na mesma prateleira?

Bom, talvez te lembres da noite do teu aniversário. Comprei aquele vestido especialmente para aquela data. A tua família é muito carinhosa. E lembras-te do meu primeiro almoço em tua casa? Recordo-me tão bem: febras com arroz e salada. E as massagens?! Nem sequer disso te lembras? Espanta-me! As pedras quentes sobre o meu corpo.... (Apagaste essa foto?). Nem do dia em que tinhas consulta no oculista e chegaste atrasado por minha causa...? Ou daquela noite debaixo das estrelas e debaixo da chuva... Ou do marco geodésico... Ou daquela tarde em frente ao campo de futebol... Ou da primeira noite em que comemorámos num jantar o dia de São Valentim... Ou dos intervalos na escola em que namorávamos nas escadas temendo que algum professor aparecesse... Ou daquela vez em que lambeste as minhas lágrimas porque eu chorei de tanto prazer...
Nada?!

Vá... Mas de algo tens de te lembrar! Não posso acreditar que não te lembres das nossas lindas mensagens que trocávamos por telefone. E daquelas manhãs em que eu acordava inspirada e mandava-te quase um testamento para te desejar um bom dia. Fui tão feliz nessas manhãs. E das nossas chamadas telefónicas que duravam horas e horas e horas. Tu cantavas para mim...

E quando jogávamos as cartas? Eu sou bem melhor que tu, sabes bem! E lembras-te daquela madrugada em que caminhei meia hora, temendo um assalto ou um estupro, só para estar deitada ao teu lado? Por pouco acordávamos os vizinhos! Ou quando deitados na tua cama imaginávamos uma câmara fotográfica no tecto e esboçávamos as posições mais rídiculas! Somos tão parvos.

Até mesmo quando escrevias cartas para os teus dois amores. Até disso me lembro bem.

Mas de nada disto te lembras? Como é possível? Qual o motivo dessa amnésia? Que droga é essa tão rápida e tão eficaz? Que fármaco é esse capaz de apagar em segundos o que demorou anos a construir? Mostra-me. Quero prová-lo porque também eu quero ter amnésia.

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